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Somos todos justiceiros

Luiz Carlos Leitão
Escrito por Luiz Carlos Leitão

Se tivéssemos um senso crítico mais aguçado veríamos que estamos nos transformando em justiceiros. Em todos os níveis e em todos os aspectos estamos deixando nossa sede de vingança aguçar nossas tendências em esquecer a legislação e agir de acordo com nossas momentâneas conveniências.

O caso envolvendo a Delegacia de Polícia de Umuarama retrata bem esta situação, pois, populares inconformados com o crime supostamente praticado por um homem que acabara de ser preso sob suspeita gerou tamanha revolta que, na tentativa de invadir a delegacia para linchá-lo, não obtendo êxito, depredaram toda aquela unidade e os veículos policiais alí estacionados. O crime fora realmente revoltante e neste momento aflora, inclusive em mim, aqueles instintos mais primitivos e a sede de vingança se torna insaciável.

O espaço de convivência que dispomos, sem dúvida, abriga almas inquietas e um espírito selvagem vem se aflorando cotidianamente. Mas será que esta é a forma correta de agirmos? Este é o país democrático que queremos? Meus desejos devem sobrepor as leis que republicanamente construímos ao longo dos anos?

Sabemos que vivemos em uma sociedade onde a hipocrisia impera e parece que não temos forças para sair dessa armadilha preparada por anos de falta de cultura e educação. Talvez alguns leiam este texto e lancem severas críticas, pois sempre há aqueles do discurso fácil que proclamam a ideia de defesa a bandidos. Mas não é este o caso. O objetivo claro é apenas para uma reflexão acerca dos rumos que estamos tomando. A continuarmos querendo resolver as questões complexas da violência no peito, extrapolando em nossas ações e ignorando os caminhos que a lei impõem, estaremos nos tornando justiceiros e não defensores da justiça.

Justiceiros buscam justiça de uma forma totalmente desiquilibrada. Avaliam todas as situações dentro de suas convicções pessoais e dentro de sua própria conveniência.
Estão sempre permeando o limite entre a lei e a selvageria. Constituem um Estado paralelo, pregando o combate da violência com mais violência. Estabelecem um tribunal particular e, naturalmente, destroçam as leis, impõem o seu próprio código moral, e isso, ameaça o mundo dos homens civilizados. Sentem-se no direito de punir, castigar e vingar a sociedade.

Mas o que mais assusta é que este é um fenômeno que tem se multiplicado e encontra forte apoio popular. Não percebemos que o justiceiro causa males incorrigíveis, e sempre por amor.

As pessoas não acreditam mais nas instituições, pois diz-se que a lei não tem conseguido conter a criminalidade. Desta forma e neste contexto, a resolução de problemas complexos de forma fácil, atrai a população e conquista adeptos.

Este é um fenômeno que não tem limite, ou o combatemos ou ele passa a tomar conta, vai crescendo e vira grupo organizado. A partir daí passa a necessitar de recursos e vai buscar, obviamente, na clandestinidade. Está aí constituída mais uma organização especializada em cometer crimes. Via de regra, essa é a historia destes grupos.

A única forma de combater este estado de coisas é buscar a consciência das pessoas e despertar fortemente em nossa sociedade a ideia de que precisamos ter e respeitar normas para vivermos bem, comunitariamente.

Os mecanismos de convivência harmoniosa e pacífica devem vir de dentro para fora de cada cidadão e não de cima para baixo. Temos que deixar de lado o comodismo de que alguém irá fazer. Nós temos que fazer a nossa parte. Precisamos descobrir adequadamente, qual é o meu lugar? Qual é o seu lugar?

Isso naturalmente nos remete ao propulsor de toda essa construção. O Respeito.