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Intervenção Federal no Rio de Janeiro

Luiz Carlos Leitão

A intervenção militar no Rio de Janeiro causa profunda perplexidade. Demonstra claramente a incompetência do Estado e da Federação em administrar uma crise que já há muito tempo incomoda todo o país.

Operações militares no Estado do Rio, vem ocorrendo desde 1992 com a Eco/92 e não há registros de quais foram os resultados práticos destas tantas participações que geram uma teatralidade operacional gigantesca, que acaba tendo muito rendimento político e quase nenhum efeito prático no cotidiano das pessoas. Tropas fortemente armadas e barulhentas invadindo morros, contrastam com a eficaz investigação que é discreta e silenciosa.
Todos temos consciência que o caos na Segurança Pública brasileira é fruto de um enorme amadorismo na gestão deste específico e delicado tema.

A adoção das Forças Armadas para garantir a Lei e a Ordem representa um paliativo no combate à criminalidade. Como resultado prático, deveremos ter uma provável migração de criminosos para outros Estados, mudando assim, pura e simplesmente, o local do problema. Na verdade, não há nada de novo nesse ciclo de violência no Estado do Rio e essa decisão claramente tem mais motivação política do que administrativa. Para o governador Luiz Fernando Pezão, autor do pedido de intervenção, é uma forma clássica de passar para outras mãos a responsabilidade por um grande abacaxi. Para o presidente Michel Temer, a intervenção gera uma mudança de foco no noticiário e reduz o dano do provável fracasso que seria a perversa, porém necessária, reforma da Previdência.

As Forças Armadas estão recebendo uma batata quente nas mãos, pois não têm preparo adequado para fazer segurança pública. São moldadas prioritariamente com ênfase na eliminação do inimigo. A criação do Ministério de Segurança Pública, com transferência da Polícia Federal da pasta da Justiça, é outra medida que traz enormes riscos.

O governo Temer está no seu último ano de mandato e mudar estruturas numa área tão delicada não me parece ter muita lógica administrativa, além do mais, não foi um assunto exaustivamente debatido com setores específicos da sociedade, e criação de ministério, convenhamos, não é tarefa de fim de governo. Políticas públicas bem delineadas, integradas e de médio e longo prazo é que podem resolver um problema tão complexo e delicado.

Igualmente importante seria incluir e debater o tema das drogas, da crescente população carcerária brasileira e discutir uma política efetiva para impedir a chegada de armamento pesado ao crime, crime este que tem a conivência das autoridades do Estado. Medidas como estas acredito serem mais importantes e complexas do que criar mais um ministério e efetivar arranjos políticos.

No atual clima de campanha eleitoral e em meio à incertezas e desencontros, e apesar de também compactuar da necessidade de que alguma medida forte devesse ser tomada para enfrentar esta crise na segurança pública, especificamente a do Rio de Janeiro, me parece que o governo conseguiu mesmo foi encontrar, no apagar das luzes, uma importante agenda popular.

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