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Histeria ou Falta de Reflexão?

Luiz Carlos Leitão

Parece brincadeira, mas a divisão do país continua acirrada e se manifesta em todos os campos. Agora a disputa circula entre o isolamento social total ou a liberação geral da população causado pela pandemia do coronavírus. Pra variar estamos novamente frente ao oito ou oitenta. De um lado pessoas apavoradas exigindo um isolamento total para evitar que o vírus se espalhe. De outro pessoas ansiosas em ver o país circulando livremente para que nossa já combalida economia possa girar e o Brasil não quebre.

A insensatez e a falta de conhecimento acerca do quadro começam a aparecer com maior força e o radicalismo de ambas as correntes tentam se fortalecer em seus argumentos pautados em achismos e induções.

Imagino que o combate à pandemia, da forma como vem ocorrendo, poderá matar mais do que o próprio coronavírus, a diferença é que serão mortes silenciosas.

O coronavírus não é um vírus especialmente mortal. Na verdade, a mortalidade em crianças e jovens é até menor do que a da gripe comum ou do H1N1.

O problema está na velocidade de sua disseminação, o que poderia levar a um grande número de casos graves em curtíssimo espaço de tempo, resultando no colapso do sistema de saúde.

Uma vez estabelecidas as previsões apocalípticas, a opção de simplesmente melhorar a capacidade de absorção do sistema de saúde parece ter se tornado inviável. 

A palavra de ordem então, passou a ser “achatar a curva” que, teoricamente, seria reduzir a velocidade de propagação do vírus, permitindo ao sistema de saúde absorver, aos poucos, os casos mais graves.

Dentre as diversas estratégias, o governante brasileiro tem optado pela mais popular e agressiva, a quarentena de toda a população com a consequente paralisia da economia.

A primeira questão que se coloca é o alcance e efetividade desse isolamento. Paralisar o Brasil com todas as implicações financeiras e sociais potencialmente gigantes, me parece totalmente irracional.

Para uma família de classe média ou alta, não é tão difícil manter um isolamento por alguns meses. Só que o Brasil não é composto basicamente por pessoas de classe média. Nas periferias a situação é muito mais difícil.

Quando alguém tenta alertar sobre os impactos financeiros de combate à pandemia, imediatamente é rotulado, no mínimo, de insensível. Como assim? Você está mais preocupado com dinheiro do que com a vida das pessoas?

O fato nu e cru é que recessão econômica resulta em mortes, recessão econômica significa menos dinheiro para investir em saneamento básico, em segurança pública, em atenção básica à saúde e até em Unidades de Terapia Intensiva, sendo todos estes fatores determinantes e geradores de mais mortes.

Recessão econômica e quebradeira de empresas também significa menos pessoas com plano de saúde e mais demanda para o SUS, cujo financiamento tende a diminuir, redefinindo mais mortes.

A partir daí me atrevo a formular a pergunta: 
Tentar evitar um possível colapso do sistema de saúde causando o colapso de toda a economia é racional?

Parte das mortes silenciosas serão decorrentes da crise econômica, mas existem outras das quais ainda não ouvi ninguém falar. Uma parte importante do sistema de saúde está parado por conta dessa pandemia. Cirurgias eletivas e consultas não emergenciais acabaram por ser suspensas, diversos exames não estão sendo realizados, transplantes de medula e de órgãos se encontram suspensos, além disso, leitos de UTI estão reservados para o tratamento de pacientes com coronavírus. Como não bastasse as doações de sangue, praticamente zeraram em muitos hemocentros. Isso tudo redundará, sem dúvida, em mais mortes.

O senso de proporcionalidade virou crime grave. Confrontar a mortalidade por gripe com os dados de mortes por coronavírus virou prova inconteste de ignorância.

Acredito que, em sendo finitos os recursos para investimento em saúde, é fundamental buscar conhecer a real dimensão do problema para se tentar melhor alocar os parcos recursos que temos.
Não é possível trabalhar apenas com números absolutos e muito menos se deixar contaminar pelo clima de pânico disseminado pela mídia e redes sociais.

Em uma sociedade impregnada pelo politicamente correto e formada por pessoas acometidas de hipersensibilidade, dizer o que é óbvio tornou-se algo muito perigoso.

Uma vez instalado o pânico, é impossível para um gestor público evitar a tomada de medidas extremas e mais populares, sendo assim, toda a divergência é suprimida. Qualquer um que questione a eficácia ou os custos do isolamento social é visto como um homicida em potencial. Por outro lado, todas as ações com algum potencial de aumentar o distanciamento entre as pessoas passa a ser louvado.

Começa então uma disputa por parte dos agentes públicos para ver quem toma a medida mais extrema. Polícia nas ruas, helicópteros para esvaziar as praias, multas para quem for pego fora de casa, dentre outras. 

Com um olhar um pouquinho mais atento, o que se observa em nossa sociedade é muita disposição para ação, muita coragem e pouca, ou quase nenhuma, reflexão. 

Infelizmente o conhecimento epidemiológico da maioria é muito pequeno e quase todos abraçaram a tese do achatamento da curva a qualquer custo e sem muito questionamento.

É preciso que médicos se debrucem sobre os estudos já realizados, principalmente os que projetaram cenários desastrosos, e sobre os dados clínicos e epidemiológicos da pandemia nos diversos países.

É preciso também que pessoas da área comecem a calcular o impacto da mortalidade causado pela paralização da economia.

Outro ponto importante, seria acalmar a população, esclarecendo que a enorme maioria dos casos são leves, não havendo necessidade de uma corrida às unidades de urgência e emergência. 

Por fim, poderia se enfatizar o isolamento, necessário e importante, porém, única e exclusivamente de indivíduos que, de forma inconteste, fazem parte do grupo de risco e os demais… bem, os demais tomem todos os cuidados e precauções, porém, tirem a bunda do sofá e vamos ao trabalho movimentar a economia desse nosso querido Brasil.

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