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Leniência Governamental

Luiz Carlos Leitão

O movimento dos caminhoneiros está nos revelando uma imagem interessante e também muito útil de como anda o nosso país, pois vai além da simples inoperância mostrada pelo governo federal nestes dias. O comando maior da nação demorou demais a agir e isso se explica porque estava mais focado em tentar manter a sua própria sobrevivência e deixou de lado a questão delicada do transporte. Outra questão no início da paralização foi que a grande preocupação era o lançamento da campanha de Henrique Meireles à sucessão presidencial.

Detalhe igualmente importante é a percepção da dependencia que temos de um setor específico de nossa sociedade, isso, acredito, deveria gerar o interesse imediato e prioritário de se criar uma nova forma de transporte, principalmente, para artigos de primeira necessidade.

Também tivemos a oportunidade de ver como uma parte da população age quando vê a possibilidade de levar vantagem apoiada em necessidades de toda a comunidade. Aí vem, naturalmente, a pergunta: Quem se aproveita destes momentos, aumentando o valor de produtos, nesse ambiente de escassez, tem moral pra chamar alguém de corrupto ou reclamar de corrupção?

Percebemos também que a observação às leis é algo totalmente relegado a um segundo plano, pois em nenhum momento se viu a organização da paralização se preocupar com a preservação, como trás a legislação, dos serviços mínimos e essenciais ao povo brasileiro.

A população em geral está percebendo, em meio ao caos, a imensa fragilidade do governo, a super dependência que temos a um setor especifico da sociedade e a falta de compromisso moral de determinados setores da população.

Percebemos também o esvaziamento do poder presencial do estado em nossa rotina diária em função do imbróglio político criado a partir dos escândalos de corrupção, que nos revelam a podridão reinante na política tupiniquim.

O governo foi leniente e fraco e na quinta feira (24 de maio) paralisou frente a dimensão, inesperada por ele, que a paralização tomou.

Em verdade, o preço do combustível é a ponta do iceberg. Valores pagos em impostos não retornam em serviços de qualidade e a partir daí temos estradas ruins, gerando altos custos de manutenção por quebras de peças, desgastes excessivos de pneus, aumento de consumo, pedágios elevados, impostos sobre veículos abusivos, insegurança na prestação de serviços, roubos de cargas, renegociação de dívidas dos caminhoneiros e etc., além de toda a alardeada corrupção, escancarada pelas operações policiais de nosso país.

Ainda é cedo para dimensionar o tamanho do impacto causado pelo movimento que se espalhou pelo Brasil, até porque não é possível precisar qual será a duração deste protesto, mas é certo que eles terão reflexos econômicos bastante robustos. A greve dos caminhoneiros deve trazer dois impactos inevitáveis para a economia brasileira, um a piora da atividade econômica e outro um efeito pontual de aumento nos índices de inflação.

A despeito de tudo isso, o protesto dos caminhoneiros brasileiros já conseguiu a previsibilidade desejada em aumentos futuros e a sinalização de redução de impostos, contudo não pode agora exceder e prejudicar a totalidade da população.

Até então a sociedade estava solidária com o problema dos caminhoneiros, porém, a partir do momento que passa a ficar refém destes, começa a mudar este entendimento. Numa briga dessas é muito importante saber a hora de entrar, porém fundamental é identificar com clareza, a hora de sair.

Foto por: Blog do Caminhoneiro

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